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Rio de Janeiro,23/04/2026

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Violência contra mulheres leva 900 vítimas por dia a unidades de saúde no Brasil

Dados do Ministério da Saúde revelam 330 mil atendimentos em um ano


Violência contra mulheres leva 900 vítimas por dia a unidades de saúde no Brasil Foto: Reprodução

Ao menos 900 meninas e mulheres procuraram atendimento diariamente em unidades de saúde no Brasil em 2025 após sofrerem algum tipo de violência. Os registros, reunidos pelo Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), somam cerca de 330 mil casos no período e revelam um cenário persistente e complexo de violência contra mulheres, que vai além dos números registrados pelas autoridades de segurança pública.

Os dados, obtidos junto ao Ministério da Saúde pelo jornal Folha de S. Paulo, refletem notificações obrigatórias feitas por profissionais de saúde em atendimentos relacionados à violência interpessoal — caracterizada pelo uso intencional de força ou poder em interações diretas. A exigência legal abrange vítimas de diferentes perfis, incluindo homens, pessoas com deficiência e a população LGBTQIA+, embora as mulheres representem a maioria dos casos.

Perfil das vítimas e padrão de agressões
Entre 2015 e 2025, as mulheres concentraram 71% das notificações de violência interpessoal, em um universo de 2,3 milhões de atendimentos registrados por unidades públicas e privadas de saúde. O perfil predominante indica vítimas entre 20 e 49 anos, negras — pardas e pretas — com menor escolaridade e, na maior parte das vezes, agredidas por parceiros ou ex-parceiros dentro de casa.

Outro dado relevante é a recorrência da violência. Mais da metade das vítimas atendidas na última década — 53% — já havia buscado ajuda anteriormente pelo mesmo motivo, evidenciando um ciclo de agressões que tende a se repetir.

As notificações do sistema de saúde diferem das estatísticas policiais, já que nem todas as mulheres que relatam violência durante o atendimento médico formalizam denúncia. Além disso, uma parcela significativa sequer chega a procurar assistência.

Segundo a pesquisadora Camila Alves, da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, apenas 34% das mulheres vítimas de violência buscaram algum tipo de atendimento em saúde, conforme aponta a Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher.

Escalada da violência e risco de morte
Especialistas alertam que a violência doméstica raramente ocorre de forma isolada. Para a professora Deborah Carvalho Malta, da Universidade Federal de Minas Gerais, há uma progressão nos casos, que pode culminar em desfechos mais graves.

“A violência não é um evento isolado. A violência por parceiro íntimo, muitas vezes, é sequencial. E o que a gente chama atenção é que isso pode ter uma escalada em termos de gravidade. Começa com a violência psicológica, mas pode evoluir até mesmo para a morte”, diz a pesquisadora.

Dados preliminares de estudos em andamento indicam que parte significativa das mulheres com histórico de múltiplas notificações de violência teve os casos encerrados em óbito, reforçando a necessidade de intervenção precoce.

Os padrões identificados pelo sistema de saúde convergem com os dados de feminicídio no país. Levantamentos mostram que as vítimas desse tipo de crime também são majoritariamente mulheres adultas, negras e agredidas dentro de casa por parceiros ou ex-companheiros.

Desafios estruturais e lacunas no atendimento
Apesar dos avanços, o atendimento às vítimas ainda enfrenta limitações. No Brasil, cerca de 40 hospitais públicos estão habilitados a oferecer atendimento completo a vítimas de violência sexual, incluindo profilaxias e, nos casos previstos em lei, a interrupção da gestação.

Segundo Damásio, essa limitação dificulta o acesso integral aos serviços necessários. “A mulher que sofre violência também sofre para encontrar o local que vá ter tudo que ela eventualmente precise”, afirma.

Os impactos da violência, ressaltam especialistas, vão além do momento da agressão. Episódios vividos na infância podem gerar consequências físicas e psicológicas duradouras, levando as vítimas a retornarem diversas vezes ao sistema de saúde ao longo da vida.

Um estudo publicado na revista The Lancet em 2025 aponta que a violência por parceiro íntimo é um dos principais fatores de risco para morte prematura e incapacidade entre mulheres de 15 a 49 anos. No Brasil, aparece entre os principais fatores associados à perda de anos de vida saudável.




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